A Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia externa o seu profundo pesar pelo falecimento de Noé Freire Sandes, da Universidade Federal de Goiás, ocorrido no dia 8 de setembro de 2020. Graduado e mestre em História pela Universidade de Brasília (1984; 1989) e doutor pela Universidade de São Paulo, ele é autor de importantes estudos sobre aspectos da formação nacional brasileira entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX e, em especial, dos livros: A invenção da nação entre a monarquia e a república (2000), Nação, políticas de saúde e identidade (2002), O tempo revolucionário e outros tempos. O jornalista Costa Rego e a representação do passado, 1930-37 (2012). Foi uma figura importante na renovação dos estudos de história política brasileira na virada para o século XXI, especialmente pela originalidade com que assimilou temas e conceitos ligados ao estudo da memória e a temporalidade. O seu talento intelectual e a sua personalidade elegante e carismática marcaram profundamente o ensino e a pesquisa de temas historiográficos, o que é atestado, entre outras coisas, pelos cerca de 40 mestres e doutores cujos trabalhos foram por ele supervisionados. Enfrentou, nos últimos anos, uma doença neurodegenerativa que o havia forçado a se aposentar em 2018. Veja-se abaixo o texto em homenagem a Noé Sandes preparado pelo Prof. Marlon Salomon.

Na noite de 8 de setembro de 2020, perdemos Noé Freire Sandes, historiador, docente e amigo. Ele tinha 59 anos. Durante três décadas, foi professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), da qual se aposentou como professor titular em 2018, após ser diagnosticado com uma grave doença neurodegenerativa. Orientou dezenas de dissertações e teses e foi responsável pela formação de mais de uma geração de historiadores; publicou inúmeros artigos, capítulos de livros e textos esparsos em diferentes publicações.

Conheci-o pessoalmente em 2003, quando cheguei à UFG. Na época, Noé era o diretor da Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia (FCHF), à qual o então Departamento de História estava vinculado. Mas eu já conhecia seu trabalho. A invenção da nação: entre a Monarquia e a República havia sido publicado em 2000 e era uma das leituras da nova historiografia brasileira que integrava a bibliografia do curso na Universidade Federal de Santa Catarina, onde eu havia estudado. Bastante iconoclástico, esse título saltava aos olhos de um historiador em formação. Apresentado três anos antes como sua tese de doutorado em história na Universidade de São Paulo (USP), a originalidade de seu trabalho residia em mostrar como, no quadro dos festejos e comemorações do Centenário da Independência do Brasil, houve uma reorganização das representações sobre o passado do país. Ele falava em “negociações entre história e memória”, mostrava como a Monarquia e o Imperador foram revalorizados a partir daqueles festejos e como o 7 de Setembro foi consagrado enquanto marco da nacionalidade. Toda uma série de novos conceitos que ajudaram a renovar a historiografia política eram habilmente manejados nesse livro em que a dimensão simbólica da história política era o foco: imaginação histórica, memória histórica, imaginário político, entre outros.

Filho de pais sergipanos, Noé nasceu em Fortaleza em 1961. Seu pai era funcionário do Banco do Nordeste e havia sido transferido para a capital cearense, onde ficava a sede da instituição, pouco antes. Em seguida, outra transferência, desta vez para Brasília, no início da década de 1970, onde Noé faria boa parte de sua formação escolar. Em 1980, ele ingressou no curso de história da Universidade de Brasília (UnB) e já no ano seguinte passou a lecionar em diferentes escolas locais. Após a conclusão da graduação, titulou-se mestre em história, pela mesma instituição, defendendo, em 1989, uma dissertação intitulada Saúde e identidade nacional (1930-1960), que seria publicada mais tarde sob o título Nação, políticas de saúde e identidade (2002). O contexto do final da ditadura e a orientação historiográfica geral – particularmente a do curso de mestrado da UnB – o direcionaram para a história política. Essa história política era, todavia, diferente daquela que encontraríamos em seu trabalho uma década depois. Tratava-se, então, de compreender como dois projetos políticos nacionais, fundados em horizontes de expectativa opostos (pessimista e otimista) problematizaram e atuaram na constituição de diferentes concepções de identidade nacional a partir da década de 1930.

Após uma passagem como professor do ensino superior privado (CEUB) em Brasília, ele foi aprovado em concurso para uma vaga de História do Brasil, na UFG, em 1988. Ele fazia parte da segunda geração de docentes do curso de história da Universidade, criado em 1965. No início dos anos 90, o Departamento de História passou por uma crise sem precedentes em sua trajetória em função de uma quantidade massiva de aposentadorias não imediatamente repostas. A nova geração de professores que ingressou no departamento durante aquele período foi responsável por atravessar esses anos de crise e, com muitos sacrifícios, praticamente restabelecer as bases do curso de mestrado em história da UFG. Noé se tornou uma liderança importante na UFG durante aquele período. Foi eleito coordenador do Programa de Pós-Graduação em História e, em seguida, diretor da FCHF. Entre 2013 e 2016, foi o diretor da Faculdade de História. Antes disso, em seus primeiros anos na Universidade, foi o coordenador do curso de história do campus de Catalão da UFG.

Tive a oportunidade de ministrar com ele, em mais de uma ocasião, cursos na pós-graduação. Seu charme, sua eloquência, sua erudição cativavam os estudantes. Era sempre extremamente gentil e atencioso, com colegas e estudantes. Conseguia valorizar, por mais singelos e evidentes que fossem, os comentários e questões dos estudantes e transformá-los em algum problema reflexivo. Ele tinha a maestria de integrar as nem sempre fáceis reflexões teóricas sobre a memória a problemas relativamente simples da pesquisa histórica e mesmo a questões práticas da vida sem, contudo, fazê-las perder sua complexidade. Era invariavelmente espirituoso; às vezes, ironicamente ácido. Não perdia uma oportunidade de debate e se divertia com a ansiedade que provocava em espíritos confusos.

Assim como Noé se inseriu e participou ativamente da vida acadêmica e institucional da Universidade, ele também tomou partido nas discussões que animavam a historiografia local, particularmente em relação à temática decadentista que insistia em organizar parte significativa da historiografia sobre Goiás e sobre a própria constituição de uma regionalidade que solicitaria para si uma história (Memória e Região, publicado em 2002, e A história escrita: percursos da historiografia goiana, organizado com Cristiano Alencar Arrais em 2018). Foi membro do IHGG e de associações como a ANPUH e a SBTHH.

Todavia, era, sobretudo, o problema da memória e de suas relações com a história que o apaixonava e o conduzia em suas pesquisas. Parte importante de seus trabalhos foi feita sob esse signo. Sem dúvida, ele se tornou historiador numa época que viu a memória, como meio de pensar a história, como objeto de tematização ou como simples fonte histórica, emergir e se impor no horizonte historiográfico. Mas se seu trabalho se inscrevia nessa historicidade, ele não se integrava a uma virada memorial do pensamento histórico. Uma das singularidades de sua reflexão – e essa talvez tenha sido uma de suas contribuições – era situar o foco de análise nas tensões, conflitos, oposições, assimilações e negociações entre história e memória. Seu livro sobre os artigos do jornalista Pedro da Costa Rego no Correio da Manhã na década de 1930, especialmente aqueles que cobriram a Constituinte de 1934, explorava a dinâmica entre história e memória (O tempo revolucionário e outros tempos: o jornalista Costa Rego e a representação do passado – 1930-1937). Nessa pesquisa, o foco de análise era enriquecido pela descoberta do tempo como elemento articulador de todas essas noções que permitiam aproximar e afastar história e memória, muito inspirado, certamente, por suas leituras, cursos e estudos da tradição fenomenológica.

Seu projeto de pesquisa financiado pelo CNPq com bolsa de produtividade tinha um objetivo audacioso e de longo prazo. Após ter estudado as concepções de temporalidade e as representações do passado na Constituinte de 1934 (centrando sua análise no articulista do Correio da Manhã), ele pretendia (e já trabalhava nisso) dedicar um livro, com o mesmo objetivo, à Constituinte de 1946 (centrando-se, dessa vez, nos textos de Carlos Lacerda), e outro, à Constituinte de 1988. Mas, ao menos desde 2012, não eram apenas as representações do passado em determinados diagramas políticos o que lhe interessava; ele passava a se preocupar com “os usos do passado” e as estratégias discursivas em torno da elaboração de diferentes culturas históricas.  Infelizmente, não teremos esses livros e não teremos um outro Noé para escrevê-los. Ao contrário do que a máxima da mediocridade costuma dizer, ninguém é substituível.

Como se pode observar, sua trajetória intelectual, seus projetos atuais e futuros formavam um todo coerente. Tratava-se, a meu ver, do estudo das representações do passado em momentos políticos decisivos em que a construção simbólica e historiográfica da nação esteve em jogo. Relendo seus trabalhos e revisitando sua trajetória intelectual, fico com a impressão de que toda sua formação foi pacientemente preparada e esculpida para nos ajudar nestes dias difíceis. E não me refiro apenas ao fato de que daqui a dois anos assistiremos às comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil ou ao fato de que de seu O tempo revolucionário e outros tempos se fechava com uma análise “das incertezas do tempo” e com o advento do Integralismo, mas a esse momento de inflexão política que atravessamos, indissociavelmente ligado a gestos de manipulação grosseira de nosso passado. Impressão, sem dúvida, falsa, de quem se ressente da falta de uma referência. Teremos que nos virar sozinhos. Mas você, Noé, nos inspirará!

Além de sua querida Adriana, Noé deixa duas filhas, Isadora e Clara, um filho, Vítor, e uma enteada, Arianne.

Marlon Salomon